Equipe em ação

Passamos 3 dias filmando em Barra Nova com uma equipe muito guerreira que enfrentou tempo tempo ruim e salvou o dia.

Mas fomos recompensados com a volta do sol e um dos crepúsculos mais lindos que já vi e toda esta beleza estará impressa no filme.

Seguem algumas fotos pra dar um gostinho do que tem sido filmar com esta galera que faz mágicas acontecerem.

Hoje continuamos nas locações na Grande Vitória.

Se tudo correr bem, finalizamos na madrugada de sexta.

 

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roteiro

EXÍLIO – roteiro

CENA 1. Paisagem árida. EXT/DIA.

Uma mulher vestida de preto caminha em uma  paisagem árida, não a vemos na totalidade, apenas fragmentos de seu  corpo.  Ela está  molhada, a roupa grudada no corpo. Também só vemos a paisagem sob o seu ponto de vista. Ela tem os pés descalços e o sol está forte.

OFF (VOZ DA MULHER): O  leste e o norte, o rumo, os deuses  de um lado e  outro  no ancestral continente  separados pelo silêncio do oceano.  As  incontáveis  diásporas,  os  novos  muros  e  a  tragédia iminente já acontecida e sempre renovada. Infindáveis léguas a nos separar.

Barulho de vento e de passos.

CENA 2. Apartamento urbano, insert de imagens em planos-detalhes. INT/NOITE.

Fragmentos do rosto de um homem e de uma mulher. Pedaços dos corpos  nus dos dois misturados.

OFF (VOZ DA MULHER): A sensação de oráculo e premonição e a saudade  que  me  vem  em  ondas  de  vento  quente  de  um  homem peixe com olhos verdes.

CENA 3. Estrada de terra em paisagem árida. EXT/DIA.

A  mulher  caminha  em  uma  estrada  de  terra,  sua  roupa  está  seca,  é  um  outro tempo. Continuamos a ver apenas fragmentos de seu corpo. Ela olha placas de sinalização escritas com caracteres em sinais de uma língua desconhecida. Sobre a  imagem  da  estrada  seca  surgem palavras  como  se fossem  escritas  com uma caligrafia delicada e trêmula:

“Rôo os ossos e descasco as feridas só pra ver se ainda dói, se ainda sangra, se ainda sinto  qualquer coisa que me mostre viva, se ainda consigo seguir mapas que apontem pistas pro meu coração errante desaguar seu fluxo em cais inseguro da vertigem da vida.”

Ela segue as placas. Ela está cansada, a respiração lenta e profunda.

OFF  (VOZ  DA  MULHER):  a sempre impossível aridez depois do sonho, esse deserto que enche minha boca de nada e arranha meus olhos com as cinzas do vazio, inunda meu ventre com o não vento dos abismos solares.

CENA 4. Apartamento. INT/NOITE.

Imagens detalhe do homem e da mulher nus deitados dormindo. Pela janela se vê que está  clareando,  quase  amanhecendo  cinzento.  Não  chove,  mas  ouvimos barulho de chuva.

OFF (VOZ DA MULHER): Senti saudade e sonhei com você aqui e quis que você soubesse enquanto a chuva cai doce e estrepitosamente sobre o pequeno jardim caótico na frente da minha janela desanimada tingindo o mundo de cinza cálido cor de água no asfalto da tarde molhada… Quanto tempo ainda para inventar uma nova vida uma nova cidade um novo eu, um novo você? E o manto de calmaria e o cheiro de nostalgia em pleno setembro quase outubro quase primavera. E dessa vez não ventou na minha ilha, só choveu.

Som de chuva.

CENA 5. Ancoradouro na beira de um rio. EXT/DIA.

A mulher está esperando o barqueiro atracar. Sobre as imagens, palavras em caligrafia se desenham:

“Infindáveis léguas a nos separar e eu no porto a cantar um fado nostálgico das terras de além mar”.

A mulher entra no barco, o barqueiro rema em direção a outra margem.

Ao som do vento, se mistura o barulho dos remos na água.

CENA 6. Cozinha – Inserção de várias imagens em detalhes. INT/DIA.

Imagem de uma jarra de vidro sendo cheia de água na torneira de uma pia. A água transborda. Ao fundo uma voz reclama incessantemente. Uma mão derruba o vidro de água. O jarro cai no chão e quebra, a água se espalha.

Barulho de água, voz reclamando, vidro quebrando, respiração, pulsação.

CENA 7. Barco atravessando o rio. EXT/DIA.

O barqueiro rema e olha para ela, que mantém o rosto baixo.

CENA 8. Ruas urbanas – inserção de imagens em planos-detalhes. EXT/NOITE.

Várias imagens urbanas em edição rápida. Um rosto distorcido na janela de um ônibus. Luzes urbanas desfocadas. Reflexo de luzes e imagens nos cromados de uma caminhonete que passa, etc. Um ônibus passa e ao fundo a mulher de preto desfocada, espera. Descalça, deslocada no meio da multidão. Detalhe de seus olhos baixos.

OFF  (VOZ  DA  MULHER): exorcizar toda intensidade e insanidade dos últimos dias: Insanidade das pessoas, da cidade, do ar seco que me faz sangrar o nariz, que me faz a boca morta. Da sua velocidade, da sua quantidade absurda de tudo: de gente, de carro, de palavras escritas e  faladas, palavras demais… E quando olhava pro seu horizonte entrecortado e vertical, o único susto que levei foi o de não mais me assustar.

CENA 9. A outra margem do rio. EXT/DIA.

O barco se movimenta lentamente, o barqueiro pula na água e o amarra nas estacas do pequeno cais improvisado. Ela desce e pisa na areia, seus pés descalços caminham na margem marcando o chão molhado com suas pegadas.

Sobre a areia marcada pelas suas pegadas, surgem palavras desenhadas:

“Cansada o bastante pra querer voltar pra casa, seja lá onde for o lugar que meu coração possa um dia, chamar de casa.”

CENA 10. Ruas da vila. EXT/DIA.

Ela olha para o topo das árvores que se movem com o vento. Ela anda pelas ruas do vilarejo que estão desertas, casas de janelas e portas fechadas, não encontra ninguém. O barqueiro já se foi, o barco não está mais atracado na margem.

Som do vento mexendo as árvores.

CENA 11. Varanda à beira mar. EXT/DIA.

Lá fora o vento balança fortemente as casuarinas. Ela está sentada em uma mesa de madeira. À sua frente várias folhas de papel em branco, algumas folhas emboladas pelo chão. Ela escreve algo, mas embola e joga fora. As  folhas brancas sobre a mesa são levadas por uma lufada de vento. Imagem de sua mão em detalhe.

OFF (VOZ DA MULHER): Folha úmida caída na calçada, pisoteada pelos sapatos de grife da vã  modernidade, um mundo que já morreu e ainda não  sabe. O nada, o horror, a náusea, a boca seca e o coração apertado.

Som de vento e das ondas do mar.

CENA 12. Beira do rio. EXT/ENTARDECER.

A mulher está agachada ao lado de uma pequena fogueira. Ela olha o  crepúsculo na beira do rio. O barqueiro passa de um lado ao outro, mas não carrega ninguém, só vemos sua silhueta.

CENA 13. Rua de terra. EXT/NOITE.

A mulher anda pela rua da vila, as casas permanecem fechadas. Mas podemos ouvir alguns ruídos. Um ou outro vulto se movimenta, como se pessoas espiassem a passagem da mulher.

CENA 14. Inserção de imagens, planos-detalhes em edição rápida.

As casuarinas se movendo ao vento. Imagens da cidade, o rosto do homem de olhos fechados iluminado pela luz da TV. A mulher com a jarra de água na mão, o seu rosto, seu olhar iluminado pela luz da janela. Um estampido. O litro caindo, pés correndo sobre os cacos, o sangue pingando. TV desfocada ao fundo.

OFF (VOZ DA MULHER): A velocidade insana de viver na superfície, no limite da vida. Ao mesmo tempo me diluir no mar de rostos que esbarram no meu olhar. A grandeza e a miudeza das vidas que não significam nada.

Barulho de água, de vento, sons urbanos, a voz monótona, um estampido, um grito – tudo misturado com música instrumental.

CENA 15. Beira mar. EXT/NOITE.

As casuarinas. A mulher na beira do mar. A praia deserta. Noite de lua cheia, tudo azul, as ondas em slow. A mulher entra no mar. O barqueiro vigia de longe como uma sentinela.

OFF (VOZ DA MULHER): Nada consegue aplacar a solidão de uma árida existência que faz com que eu me mova pra água e pro vento. Tentar  acalmar o fogo ancestral que ainda me consome de dor e prazer…

CENA 16. Praia. EXT/NOITE

A mulher e um homem nus abraçados deitados na areia. As ondas em slow.  A lua refletindo na água. O barqueiro olha. A mulher na água.

OFF  (VOZ  DA  MULHER): E pensei em você na cidade terrorista e em como  é difícil sobreviver no ventre do monstro antropofágico que engole os sonhos e a capacidade de crer em miragens tendo um não horizonte a nos orientar. E senti saudades mesmo pressentindo que o medo viria me  roubar a possibilidade do encontro. O vazio e o silêncio são minhas únicas respostas.

Imagem em slow de detalhe do mar e das ondas indo e vindo. Sobre a imagem a escrita em caligrafia, como um bordado prateado e delicado:

“Então a Lua e o Sol se indo do outro lado do planeta. Então as nuvens macias, azuis, abrindo para minha cidadela iluminada, minha ilha de luz incrustada no oceano negro.”

CENA 17. Praia. EXT/AMANHECER.

A  mulher com as roupas molhadas, segura uma folha com algumas  palavras escritas com a mesma liguagem cifrada de sinais das placas na estrda. Ela coloca a folha na areia, coloca uma pedra em cima. Ela se levanta e caminha ao longo da faixa de areia, se afastando pela beira-mar. A folha em primeiro plano, o vento leva a folha. A mulher se afasta cada vez mais até se tornar um ponto preto ao fundo, os créditos com o nome do filme surgem.

OFF (VOZ DA MULHER): E ainda hoje manhãzinha caminhei na areia dos sonhos na praia limiar entre o caminho percorrido e os pesadelos da descrença. E o sol queimava meus olhos como bafo de dragão quando eu tentava em vão olhar dentro da impossibilidade abrindo um portal na entrada da gruta onde uma força ancestral mostrava sua mão estendida com uma pequena caixa negra na qual ainda não pude olhar mesmo sabendo que já sei a resposta… E embora na minha visão fosse noite, fora o dia queimava e insistia a secura que oprime o peito. E quando olhei o  mar novamente as cores me pareceram mais suaves em cinzas doces com pinceladas de prata líquido e branco leite.

E pensei “vai chover” com a dor em todas as cicatrizes me avisando e andei mais aliviada e então choveu e choveu muito com o céu passando de impressionista pra expressionista e o cinza esmaecido tingindo-se do chumbo quase negro da noite.

Música, som de mar e vento.